Disse Deus, Haverá uma Igreja, que, como sabes, quer dizer assembleia, uma sociedade religiosa que tu fundarás, ou em teu nome será fundada, o que é mais ao menos o mesmo se nos ativermos ao que importa, e essa Igreja espalhar-se-á pelo mundo até a confins que ainda estão por conhecer, chamar-se-á católica porque será universal, o que, infelizmente, não evitará desavenças e dissenções entre os que te terão como referência espiritual, mais, como já te disse, do que a mim próprio, mas isso será apenas por algum tempo, só uns milhares de anos, porque eu já era antes que tu fosses e sempre o hei-de ser depois que tu deixes de ser o que és e o que serás, (...) O que quero que me digas é como viverão os homens que depois de mim vierem, Referes-te aos que te seguirem, Sim, se serão mais felizes, Mais felizes, o que se chama felizes, não direi, mas terão a esperança de uma felicidade lá no céu onde eu eternamente vivo, portanto a esperança de viverem eternamente comigo, (...) Quero saber mais, disse Jesus quase com violência, (...) Quero saber como chegarão as pessoas a crer em mim e a seguir-me, não me digas que bastará o que em meu nome disserem depois de mim os que em mim já creiam, dou-te um exemplo, os gentios e os romanos, que têm outros deuses, quererás tu dizer-me que, sem mais nem menos, os trocarão por mim, Por ti não, por mim, Por ti ou por mim, tu próprio dizes que é o mesmo, não joguemos com as palavras, responde à minha pergunta, Quem tiver a fé virá a nós, Assim, sem mais nada, tão simplesmente como acabas de o dizer, Os outros deuses resistirão, E tu lutarás contra eles, por certo, Que disparate, tudo quanto acontece, é na terra que acontece, o céu é eterno e pacífico, o destino dos homens cumprem-no os homens onde estiverem, Dizendo as coisas por claro, (...) vão morrer homens por ti e por mim, Os homens sempre morreram pelos deuses, até por falsos e mentirosos deuses, Podem os deuses mentir, Eles podem, E tu és, de todos, o único e verdadeiro, Único e verdadeiro, sim, E, sendo verdadeiro e único, nem assim podes evitar que os homens morram por ti, eles que deviam ter nascido para viver para ti, na terra, quero dizer, não no céu, onde não terás, para lhes dar, nenhuma das alegrias da vida, (...). Disse Jesus, Estou à espera, De quê, perguntou Deus, como se estivesse distraído, De que me digas quanto de morte e de sofrimento vai custar a tua vitória sobre os outros deuses, com quanto de sofrimento e de morte se pagarão as lutas que, em teu nome e no meu, os homens que em nós vão crer travarão uns contra os outros, Insistes em querer sabê-lo, Insisto, Pois bem, edificar-se-á a assembleia de que te falei, mas os caboucos dela, para ficarem bem firmes, haverão de ser cavados na carne, e os seus alicerces compostos de um cimento de renúncias, lágrimas, dores, torturas, de todas as mortes imagináveis hoje e outras que só no futuro serão conhecidas, Finalmente, estás a ser claro e directo, continua, Para começar por quem tu conheces e amas, o pescador Simão, a quem chamarás Pedro, será, como tu, crucificado, mas de cabeça para baixo, crucificado também há-de ser André, numa cruz em forma de X, ao filho de Zebedeu, aquele que se chama Tiago, degolá-lo-ão, E João, e Maria de Magdala, Esses morrerão de sua natural morte, quando se lhes acabarem os dias naturais, mas outros amigos virás a ter, discípulos e apóstolos como os outros, que não escaparão aos suplícios, é o caso de um Filipe, amarrado à cruz e apedrejado até se lhe acabar a vida, um Bartolomeu, que será esfolado vivo, um Tomé, que matarão à lançada, um Mateus, que não me lembro agora de como morrerá, um outro Simão, serrado ao meio, um Judas, a golpes de maça, outro Tiago, lapidado, um Matias degolado com acha-de-armas, (...) Todos eles vão ter de morrer por causa de ti, perguntou Jesus, Se pões a questão nesses termos, sim, todos morrerão por minha causa, E depois, Depois, meu filho, já to disse, será uma história interminável de ferro e de sangue, de fogo e de cinzas, um mar infinito de sofrimento e de lágrimas, Conta, quero saber tudo. Deus suspirou e, no tom monocórdico de quem preferiu adormecer a piedade e a misericórdia, começou a ladainha, por ordem alfabética para evitar melindres de precedências, Adalberto de Praga, morto com um espontão de sete pontas, Adriano, morto à martelada sobre uma bigorna, Afra de Ausburgo, morta na fogueira, (...) Águeda de Sicília, morta com os seios cortados, (...) Anastácio de Salona, morto na forca e decapitado, Anastásia de Sírmio, morta na fogueira e com os seios cortados, Ansano de Sena, morto por arrancamento das vísceras, Antonino de Pamiers, morto por esquartejamento, (...). É tudo, perguntou Jesus a Deus, Não, ainda faltam as guerras, Também haverá guerras, E matanças, (...) que guerras são essas, Muitas, um nunca mais acabar delas, mas sobretudo as que serão feitas contra ti e contra mim em nome de um deus que ainda está por aparecer, Como é possível estar para aparecer um deus, um deus, se realmente o é, só pode existir desde sempre e para sempre, Reconheço que custa a compreender, não menos a explicar, mas vai suceder como te estou dizendo, um deus virá e lançará contra nós, e os que então nos seguirem, povos inteiros, não, não tenho palavras bastantes para contar-te das mortandades, das carnificinas, das chacinas, imagina o meu altar de Jerusalém multiplicado por mil, põe homens no lugar dos animais, e nem mesmo assim chegarás a saber ao certo o que foram as Cruzadas, (...).
Passou tempo, o nevoeiro não tornou a falar, e Jesus perguntou, agora num tom de quem só espera uma resposta afirmativa, Nada mais. Deus hesitou, e depois, em tom cansado, disse, Ainda há a Inquisição, mas dela, se não te importas, podíamos falar noutra altura, Que é a Inquisição, A Inquisição é outra história interminável, Quero saber, Seria melhor que não soubesses, Insisto, Vais sofrer na tua vida de hoje remorsos que são do futuro, E tu, não, Deus é Deus, não tem remorsos, Pois eu, se já levo esta carga de ter de morrer por ti, também posso aguentar os remorsos que deviam ser teus, (...) A Inquisição, também chamada Tribunal do Santo Ofício, é o mal necessário, o instrumento crudelíssimo com que debelaremos a infecção que um dia, e por longo tempo, se instalará no corpo da tua Igreja por via das nefandas heresias em geral e seus derivados e consequentes menores, a que se somam umas quantas perversões do físico e do moral, o que, tudo reunido e posto no mesmo saco de horrores, sem preocupações de prioridade e ordem, incluirá luteranos e calvinistas, molinistas e judaizantes, sodomitas e feiticeiros, mazelas e algumas que serão do futuro, outras de todos os tempos, E, sendo a necessidade que dizes, como procederá a Inquisição para reduzir esses males, A Inquisição é uma polícia e é um tribunal, por isso haverá de prender, julgar e condenar como fazem os tribunais e as polícias, Condenará a quê, Ao cárcere, ao degredo, à fogueira, À fogueira, dizes, Sim, vão morrer queimados, no futuro, milhares e milhares e milhares de homens e mulheres, De alguns já me tinhas falado antes, Esses foram lançados à fogueira por crerem em ti, os outros sê-lo-ão por duvidarem, Não é permitido duvidar de mim, Não, Mas nós podemos duvidar de que o Júpiter dos romanos seja deus, O único Deus sou eu, eu sou o Senhor, e tu és o meu Filho, Morrerão milhares, Centenas de milhares, Morrerão centenas de milhares de homens e mulheres, a terra encher-se-á de gritos de dor, de uivos e roncos de agonia, o fumo dos queimados cobrirá o sol, a gordura deles rechinará sobre as brasas, o cheiro agoniará, e tudo isto será por minha culpa, Não por tua culpa, por tua causa, Pai, afasta de mim esse cálice, Que tu o bebas é a condição do meu poder e da tua glória, Não quero esta glória, Mas eu quero esse poder. (...) Então o Diabo disse, É preciso ser-se Deus para gostar tanto de sangue.
José Saramago,
in O Evangelho segundo Jesus Cristo