terça-feira, 23 de março de 2010

“As religiões, todas elas, por mais voltas que lhes dermos, não têm outra justificação para existir que não seja a morte, precisam dela como do pão para a boca. (...) Tem razão, senhor filósofo, é para isso mesmo que nós existimos, para que as pessoas levem toda a vida com o medo pendurado ao pescoço e, chegada a sua hora, acolham a morte como uma libertação, O paraíso, Paraíso ou inferno, ou coisa nenhuma, o que se passe depois da morte importa-nos muito menos que o que geralmente se crê, a religião, senhor filósofo, é um assunto da terra, não tem nada que ver com o céu, Não foi o que nos habituaram a ouvir, Algo teríamos que dizer para tornar atractiva a mercadoria, Isso quer dizer que em realidade não acreditam na vida eterna, Fazemos de conta.”

José Saramago,
in As Intermitências da Morte

1 comentário:

  1. Uau, muitíssimo inteligente a última observação!
    Uma crença não tem de ser "um assunto da terra", mas a religião parece-me que sim, que o é. Ao precisarem da religião por prometer uma vida após a morte, não estão a acreditar realmente nessa mesma ideia, pois se assim fosse não precisariam da promessa e de cumprir com uma série de condições que faz de si dignos de entrar no paraíso. Se a vida eterna existe, existe para todos. No fundo pouco importa, porque só o saberemos quando morrermos e eu pessoalmente não estou disposta a correr o risco de desperdiçar esta vida, não pela hipótese de ser a única que tenho, mas porque é a única de que me lembro. Assim, é como se não existisse mais nada. Não compro a "mercadoria" com esse argumento.
    Muitos vivem consoante determinados padrões para se adequarem à ideia de como deve ser uma boa pessoa, ou alguém muito mau mas miseravelmente arrependido (por medo, não por se meterem na pele de outrém). Falsas boas pessoas, se a bondade não vem de dentro mas de uma lição bem estudada. Cruzei-me com algumas pessoas bastante feias, muitíssimo feias, mas que vão à missa todos os domingos, se confessam e acreditam que depois disso são melhores pessoas. Mudar, não mudam.

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