terça-feira, 25 de maio de 2010

Balada duma heroína

Vais morrer com a saia rota,
sem flores nos cabelos...
-Mas isso que importa
se depois de morta
até as mãos da terra
hão-de florescê-los ?

Vais morrer de blusa no fio,
sem laços nas tranças ...
-Mas isso que importa
se depois de morta
até as mãos do frio
penteiam as crianças ?

Vais morrer espantada na rua,
sem fitas nos caracóis ...
-Mas isso que importa
se depois de morta
até as mãos da lua
enfeitam os heróis ?

Vais morrer a cantar numa esquina,
de sapatos velhos ...
-Mas isso que importa
se depois de morta
continuarás a ser a menina
que nunca teve espelhos ?

Vais morrer com olhos de águia presa
e meias de algodão ...
-Mas isso que importa
se depois de morta
a tua beleza
não caberá num caixão?
E há-de rasgar a terra
e romper o chão
como uma primavera
de lágrimas acesa
que os homens atiram, em vão,
para a natureza.

 Lisboa, 1953
José Gomes Ferreira

2 comentários:

  1. Correcções à última estrofe:
    -> um ponto de interrogação é colocado a seguir à palavra caixão.
    -> o último verso não termina com ponto de interrogação, trata-se de uma afirmação.

    ResponderEliminar