quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Every individual person is like all other persons, like some other persons, and like no other person.

Kluckhohn & Murray, 1953
Org Behaviour
"Tudo se me evapora. A minha vida inteira, as minhas recordações, a minha imaginação e o que contém, a minha personalidade, tudo se me evapora. Continuamente sinto que fui outro, que senti outro, que pensei outro. Aquilo a que assisto é um espetáculo com outro cenário. E aquilo a que assisto sou eu.
Encontro às vezes, na confusão vulgar das minhas gavetas literárias, papéis escritos por mim há dez anos, há quinze anos, há mais anos talvez. E muitos deles me parecem de um estranho; desreconheço-me neles. Houve quem os escrevesse, e fui eu. Senti-os eu, mas foi como em outra vida, de que houvesse agora despertado como de um sono alheio. (...)
Meu Deus, meu Deus, a quem assisto? Quantos sou? Quem é eu? O que é este intervalo que há entre mim e mim?"

Bernardo Soares (Fernando Pessoa),
in Livro do Desassossego
"Diz quanto vais ganhar com este orçamento!" - José Manuel Coelho (PND), de pé e aos gritos.
"Se falo na natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar..."

by Alberto Caeiro
"Pudesses tu ver a nuvem fechada que dentro de ti está, Ou de ti, Ou de mim, pudesses tu vê-la, e saberias que é bem pouco uma nuvem do céu comparada com a nuvem que está dentro do homem."

Memorial do convento

domingo, 27 de setembro de 2009

Conselho

Cerca de grandes muros quem te sonhas.
Depois, onde é visível o jardim
Através do portão de grade dada,
Põe quantas flores são as mais risonhas,
Para que te conheçam só assim.
Onde ninguém o vir não ponhas nada.

Faze canteiros como os que outros têm,
Onde os olhares possam entrever
O teu jardim com lho vais mostrar.
Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém,
Deixa as flores que vêm do chão crescer
E deixa as ervas naturais medrar.

Faze de ti um duplo ser guardado;
E que ninguém, que veja e fite, possa
Saber mais que um jardim de quem tu és -
Um jardim ostensivo e reservado,
Por trás do qual a flor nativa roça
A erva tão pobre que nem tu a vês...

FERNANDO PESSOA
"Não vás ás aulas hoje se podes ir amanhã"

"A vida são dois dias. Faz directa".

"Perguntaram ao Dalai Lama: "O que mais o surpreende na humanidade ?" Ele respondeu: "Os homens...Por perderem a saúde para juntar dinheiro e depois, perderem esse dinheiro que juntaram, para recuperar a saúde. E por pensarem tão ansiosamente no futuro, esquecem do presente de tal forma, que acabam por não viver nem o presente nem o futuro. Vivem como se nunca fossem morrer e morrem como se nunca tivessem vivido...""
"Por vezes existe nas pessoas ou nas coisas um charme invisível, uma graça natural que não pode ser definida, a que somos obrigados a chamar o «não sei o quê». Parece-me que é um efeito que deriva principalmente da surpresa. Sensibiliza-nos o facto de uma pessoa nos agradar mais do que deveria inicialmente e somos agradavelmente surpreendidos porque superou os defeitos que os nossos olhos nos mostravam e que o coração já não acredita. Esta é a razão porque as mulheres feias possuem muitas vezes encantos que raramente as mulheres belas possuem, porque uma bela pessoa geralmente faz o contrário daquilo que esperávamos; começa a parecer-nos menos estimável. Depois de nos ter surpreendido positivamente, surpreende-nos negativamente; mas a boa impressão é antiga e a do mal, recente: assim, as pessoas belas raramente despertam grandes paixões, quase sempre restringidas às que possuem encantos, ou seja, dons que não esperaríamos de modo nenhum e que não tinhamos motivos para esperar.
Os encantos encontram-se muito mais no espírito do que no rosto, porque um belo rosto mostra-se logo e não esconde quase nada, mas o espírito apenas se mostra gradualmente, quando quer e do modo que quer; pode esconder-se para surgir de novo e proporcionar essa espécie de surpresa que constitui os encantos."

Charles de Montesquieu,
in Ensaio Sobre o Gosto
"(...) A primeira cousa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande. Olhai como estranha isto Santo Agostinho: (...) «Os homens com suas más e perversas cobiças, vêm a ser como os peixes que se comem uns aos outros». Tão alheia cousa é, não só da razão, mas da mesma natureza, que, sendo todos criados ao mesmo elemento, todos cidadãos da mesma pátria, e todos finalmente irmãos, vivais de vos comer! Santo Agostinho, que pregava aos homens, para encarecer a fealdade deste escândalo, mostrou-lho nos peixes; e eu, que prego aos peixes, para que vejais quão feio e abominável é, quero que o vejais nos homens.
Olhai, peixes, lá do mar para a terra. Não, não: não é isso o que vos digo. Vós virais os olhos para os matos e para o sertão? Para cá, para cá; para a cidade é que haveis de olhar. Cuidais que só os Tapuias se comem uns aos outros? Muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os brancos. Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas; vedes aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão-de comer, e como se hão-de comer. Morreu algum deles, vereis logo tantos sobre o miserável a despedaçá-lo e comê-lo. Comem-no os herdeiros, comem-no os testamenteiros, comem-no os legatários, comem-no os acredores; comem-no os oficiais dos órfãos, e os dos defuntos e ausentes; come-o o médico, que o curou ou ajudou a morrer; come-o o sangrador que lhe tirou o sangue; come-o a mesma mulher, que de má vontade lhe dá para a mortalha o lençol mais velho da casa; come-o o que lhe abre a cova, o que lhe tange os sinos, e os que, cantando, o levam a enterrar; enfim, ainda o pobre defunto o não comeu a terra, e já o tem comido toda a terra.
Já se os homens se comeram somente depois de mortos, parece que era menos horror e menos matéria de sentimento. Mas para que conheçais a que chega a vossa crueldade, considerai, peixes, que também os homens se comem vivos assim como vós. (...)
Vede um homem desses que andam perseguidos de pleitos ou acusados de crimes, e olhai quantos o estão comendo. Come-o o meirinho, come-o o carcereiro, come-o o escrivão, come-o o solicitador, come-o o advogado, come-o o inquiridor, come-o a testemunha, come-o o julgador, e ainda não está sentenciado, já está comido. São piores os homens que os corvos. O triste que foi à forca, não o comem os corvos senão depois de executado e morto; e o que anda em juízo, ainda não está executado nem sentenciado, e já está comido.
(...) comem os homens não só o seu povo, senão declaradamente a sua plebe (...), porque a plebe e os plebeus, que são os mais pequenos, os que menos podem e os que menos avultam na República, estes são os comidos. (...) Porque os grandes que têm o mando das Cidades e das Províncias, não se contenta a sua fome de comer os pequenos um por um, ou poucos a poucos, senão que devoram e engolem os povos inteiros (...). E de que modo os devoram e comem? (...) não como os outros comeres, senão como pão. A diferença que há entre o pão e os outros comeres, é que para a carne, há dias de carne, e para o peixe dias de peixe, e para as frutas, diferentes meses no ano; porém o pão é comer de todos os dias, que sempre e continuadamente se come; e isto é o que padecem os pequenos. São o pão quotidiano dos grandes; e assim como o pão se come com tudo, assim com tudo e em tudo são comidos os miseráveis pequenos, não tendo, nem fazendo ofício em que os não carreguem, em que os não multem, em que os não defraudem, em que os não comam, traguem e devorem (...). Parece-vos bem isto, peixes? (...) Pois isto mesmo é o que vós fazeis. Os maiores comem os pequenos; e os muito grandes não só os comem um por um, senão os cardumes inteiros, e isto continuadamente sem diferença de tempos, não só de dia, senão também de noite, às claras e às escuras, como também fazem os homens. (...)"

Padre António Vieira,
in Sermão de Santo António aos Peixes
For as knowledges are now delivered, there is a kind of contract of error between the deliverer and receiver: for he that delivereth knowledge desireth to deliver it in such a form as may be best believed, and not as may be best examined; and he that receiveth knowledge desireth rather present satisfaction than expectant enquiry; and so rather not to doubt than not to err: glory making the author not to lay open his weakness, and sloth making the disciple not to know his strength.

Francis Bacon,
in Advancement of Learning

sábado, 26 de setembro de 2009

Hoje, cinco segundos de total escuridão deslumbraram a minha vista. Agradeço-me a mim mesmo.
“E, com efeito, como em todos os outros planetas, no planeta do principezinho havia ervas boas e ervas daninhas, e, logo, sementes boas de ervas boas e sementes daninhas de ervas daninhas. Mas as sementes são invisíveis. Dormem no segredo da terra até que a uma lhe dê para acordar… Então, espreguiça-se e começa por lançar timidamente um rebentozinho inofensivo e encantador em direcção ao Sol. Se é um rebento de rabanete ou de roseira pode-se deixá-lo crescer à vontade. Mas mal se aperceba que é de uma planta daninha, há que arrancá-lo imediatamente. Ora no planeta do principezinho havia sementes terríveis… eram as sementes de embondeiro. O solo do planeta estava infestado delas. Se só se reparar num embondeiro quando ele já for bastante grande, nunca mais ninguém se vê livre dele. Atravanca o planeta todo. Esburaca-o com as suas raízes. E se o planeta for mesmo muito pequenino e os embondeiros forem muitos, com certeza que rebentam com ele. ”

Antoine de Saint-Exupéry,
in O Principezinho
Andam por aí uns pseudo-pedagogos, desnorteados com leituras que entenderam mal, a prègar [a primarização] do ensino das matemáticas (...). Claro que a lei do menor esfôrço está por êles, e isso é que os torna perigosos; mas os interêsses da cultura nacional e os dos próprios alunos, estão contra.
(...) A Matemática é útil a todos (...), principalmente pelo seu método e pela ginástica que o seu estudo dá ao espírito.
(...) Compreende-se uma iniciação aos estudos matemáticos, feita sem demonstrações lógicas. Mas uma coisa é uma iniciação rápida e outra é um ensino matemático sistemàticamente viciado até ao fim.
(...) As matemáticas para serem úteis a quem as estuda, têm de ser ensinadas como elas são, e não como dão menos trabalho a mestres e alunos.

Diogo Pacheco de Amorim,
in prefácio do 2.º volume do Compêndio de Geometria, 1934
"A miséria religiosa é, ao mesmo tempo, a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o âmago de um mundo sem coração e a alma de situações sem alma. É o ópio do povo.
A abolição da religião enquanto felicidade ilusória dos homens é a exigência da sua felicidade real. O apelo para que eles deixem as ilusões a respeito da sua situação é o apelo para abandonarem uma situação que precisa de ilusões. A crítica da religião é, pois, em germe a crítica do vale de lágrimas de que a religião é a auréola. A crítica colheu nas cadeias as flores imaginárias, não para que o homem suporte as cadeias sem fantasia ou sem consolação, mas para que lance fora as cadeias e colha a flor viva.
A crítica da religião liberta o homem da ilusão, de modo que ele pense, actue e configure a sua realidade como homem que perdeu as ilusões e recuperou o entendimento, a fim de que ele gire à volta de si mesmo e, assim, à volta do seu verdadeiro sol. A religião é apenas o sol ilusório que gira à volta do homem enquanto ele não gira à volta de si mesmo."

Karl Marx,
in Para a Crítica da Filosofia do Direito de Hegel
"Não é mortal quem morre, mas quem está certo de que vai morrer."

"Os verdadeiros viventes são só os mortais, porque sabemos que deixaremos de viver e que é exactamente nisso que a vida consiste."

"(...) a morte é o mais individualizador e ao mesmo tempo o mais igualitário: nesse momento crítico, ninguém é mais nem menos que ninguém, sobretudo ninguém pode ser outro em vez do que é. Ao morrer, cada um é definitivamente o próprio e mais ninguém. Do mesmo modo que ao nascer trazemos ao mundo aquele que nunca antes havia sido, ao morrer levamos o que nunca mais voltará a ser."

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"É um paradoxo que habitualmente chamemos "crentes" às pessoas de convicções religiosas, porque o que as caracteriza sobretudo, não é aquilo em que crêem (coisas misteriosamente vagas e muito diferentes) mas aquilo em que não acreditam: o mais óbvio, necessário e omnipresente, quer dizer, na morte. Os chamados "crentes" na realidade são os "incrédulos" que negam a realidade última, a morte. Talvez a forma mais cómoda de enfrentar essa inquietação -- sabemos que vamos morrer mas não podemos imaginar-nos realmente mortos."

"Querer saber, querer pensar, significa querer estar verdadeiramente vivo. Vivo face à morte, não entontecido e anestesiado à sua espera."

Fernando Savater,
in As Perguntas da Vida

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Mal olho as páginas brancas, os meus pensamentos reagem todos.

domingo, 20 de setembro de 2009

Nada é sagrado.
Nada é inamovível.
Nada é verdade só porque alguém o diz,
nem,
provado que o é,
senão enquanto vale.
Nada é silêncio apenas de cerrar
os ouvidos teimosos.
Nada é inteiramente flor ou estrume.

Armindo Rodrigues,
in O Poeta Perguntador
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"o que sabemos é uma gota, o que ignoramos, um oceano."
Isaac Newton

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

e senti algo que julguei nao poder sentir, um silencio enorme na sombra de um corpo.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

A arte de ser feliz

Houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e sentia-me completamente feliz.

Houve um tempo em que a minha janela dava para um canal. No canal oscilava um barco. Um barco carregado de flores. Para onde iam aquelas flores? Quem as comprava? Em que jarra, em que sala, diante de quem brilhariam, na sua breve existência? E que mãos as tinham criado? E que pessoas iam sorrir de alegria ao recebê-las? Eu não era mais criança, porém minha alma ficava completamente feliz.

Houve um tempo em que a minha janela se abria sobre uma cidade que parecia feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre homem com um balde e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega; era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas d’água que caíam de seus dedos magros, e meu coração ficava completamente feliz.

Houve um tempo em que a minha janela se abria para um terreiro, onde uma vasta mangueira alargava sua copa redonda. À sombra da árvore, numa esteira, passava quase todo o dia sentada uma mulher, cercada de crianças. E contava histórias. Eu não a podia ouvir, da altura da janela e mesmo que a ouvisse, não a entenderia, porque isso foi muito longe, num idioma difícil. Mas as crianças tinham tal expressão no rosto, e às vezes faziam com as mãos arabescos tão compreensíveis, que eu participava do auditório, imaginava os assuntos e suas peripécias e me sentia completamente feliz.

Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Às vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.

Mas, quando falo dessas pequenas felicidades que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

Cecília Meireles
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Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde foi nessa área que os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano.

Cecília Meireles
Even if you're on the right track, you'll get run over if you just sit there.
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"If you keep thinking about what you want to do or what you hope will happen, you don't do it, and it won't happen."

Desiderius Erasmus

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

If you can find a path with no obstacles, it probably doesn't lead anywhere.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

किशन Kishan
Somos cada vez mais ao longo da nossa vida novos brinquedos de alguém e cada vez mais temos diferentes brinquedios. Tudo o resto segue por patologia.

Radiohead - Fitter Happier



A pig in a cage on antibiotics..