domingo, 2 de maio de 2010

Para amarmos alguém temos de considerar essa pessoa melhor que nós nalgum aspecto? Se em nada nos fascinar, não a amaremos?



«Quando olhamos para o ser amado (um anjo) e, não sendo o nosso amor correspondido, imaginamos o prazer que estar no céu na sua companhia pode trazer-nos, tendemos a ignorar um risco importante, os atractivos dessa pessoa podem esmorecer se ela decidir amar-nos. Apaixonamo-nos porque desejamos fugir de nós próprios com uma criatura tão bela, inteligente e divertida quanto somos feios, estúpidos e chatos. Mas que sentir quando um ser de tão rara perfeição um dia decide realmente retribuir o nosso amor? Só podemos ficar chocados – como é possível uma pessoa que parecia tão maravilhosa ter o mau gosto de apreciar alguém como nós? Se, para amarmos, precisamos de acreditar que o ser amado nos ultrapassa de algum modo, não constituirá a retribuição desse amor um cruel paradoxo? Apetece perguntar: “Se ela/ele é assim tão maravilhosa/o, como pode gostar de mim?”»


Capítulo 6 de Ensaios Sobre o Amor, Alain de Botton



Kish: É realmente um paradoxo.
Lena: Apenas se assumirmos que somos inferiores.

Primeiro, não acho que as pessoas sejam mais ou menos umas que as outras, mas sim que têm coisas melhores e piores em comparação.

Talvez para amar alguém, esse alguém nos capte a atenção pelo bem que nos faz e nos fascine com qualidades que não temos e aspectos que gostaríamos de melhorar em nós mesmos.

Eu, no lugar do autor, talvez me limitasse a falar de “fascínio” ou “atracção”, não usasse o termo “amor”, pois há vários tipos de amor e embora seja claro que o autor se refere ao amor entre casais é muito arrojado tentar dar uma explicação simples para algo tão complexo. E não é só do termo que discordo. Faz-me confusão que se tenha esquecido que, lá está, não somos mais nem menos que outros, só diferentes, e temos coisas muito boas para equilibrar as que nos faltam.

Kish: De acordo com o autor, se ambos assumirmos que somos bons, então como amamos? O que amamos?
Lena: Não faz sentido que se meça as pessoas numa escala geral. Se assim fosse e só amássemos alguém que achássemos superior a nós, então uma relação nunca resultaria para ambos os lados. Teríamos de ser pessoas iguais nas coisas boas para não nos amarmos mutuamente. Isso não existe, penso eu. E seríamos também iguais nos defeitos? Então não nos suportaríamos.
Kish: Podem ambos ser bons em coisas diferentes.

Amamos talvez por essa pessoa ter pontos que nos fascinam porque não os temos. Ela amar-nos de volta só será um paradoxo se assumirmos que não somos bons também noutras coisas - logo inferiores - logo não merecedores. Eu percebo que as pessoas sintam o que o autor escreveu, quando não são seguras de si ou têm dificuldade em ver claramente a sua pessoa e as suas qualidades, mas é algo turvo e pouco racional, pouco frio, pouco certo. Tem falhas lógicas óbvias.

Kish: Como é que alguém pode re-equilibrar a sua perspectiva? Reconsiderando as qualidades do outro ou valorizando-se mais?
Lena: Cada caso é um caso, mas penso que as qualidades da outra pessoa estão lá e não há muito a pensar sobre isso. Valorizando-se mais parece-me uma atitude saudável. Descobrir coisas menos boas na outra pessoa fá-la-á não continuar a divinizá-la. É difícil, se estiver com alguém extraordinário, mas ninguém é perfeito.

Eu acho que quando amamos uma pessoa e queremos o melhor para ela vamos ser o melhor de nós com ela, esperando que isso chegue para ela ser feliz.

Kish: Alguém que pense como o autor escreveu, pensa também ao contrário? “com isto e aquilo de mau que esta pessoa tem, estaria melhor com alguém que fosse mais assim ou assado”?
Lena: Realmente a outra pessoa não é perfeita e pensar assim seria igualmente válido. Se estamos bem com os defeitos do outro, não pensamos ao contrário. Se ele/a não se mostra infeliz, então deveríamos parar de pensar tanto no bem estar do próximo. Insegurança e pouca simplicidade não costumam trazer bons frutos.

Conclusão:
Todos temos altos e baixos. Assumirmos que a régua é feita no geral e que portanto somos inferiores é partir de falsas premissas e chegar a falsas conclusões.



Algo que escrevi há algum tempo, de certa forma relacionado com este tema, mas não só. http://dacasota.blogspot.com/2010/04/flutuar_02.html

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